como preparar a cabeça e o coração para receber o seu filho

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como preparar a cabeça e o coração para receber o seu filho

A chegada de um filho costuma transformar a rotina, as prioridades da família, além de ser um turbilhão emocional. Quando esse filho vem pela via da adoção, tudo fica ainda mais intenso, já que o tempo de espera, a idade e as características da criança são indefinidos. É comum surgir o medo de não conseguir estabelecer uma conexão, de não ser amado como pai ou mãe. O cenário desafiador não deve ser motivo para recuar: com preparação, uma boa rede de apoio – além de amor e paciência -, é possível construir um vínculo sólido.

Olhar com franqueza para as motivações da adoção é a primeira recomendação da psicanalista Sandra Quintino. “Adotar um filho para fazer caridade, para salvar o casamento ou para ter companhia para o filho biológico não deve ser motivação.”

Segundo ela, a maioria dos casais que solicita a adoção tem problemas de infertilidade. “Muitas vezes, são pessoas que estão tentando ter um filho há anos e passam por muita frustração. Chegam para a adoção devastados e com muita expectativa. Aí, o tombo é grande”, explica. Nesses casos, Sandra recomenda primeiro tratar essa dor. “A adoção não pode ser vista como um plano B, mas aceita de forma completa.”

Uma vez que uma pessoa ou casal tenha decidido adotar e tenha iniciado os trâmites, é preciso se preparar. Se por um lado é difícil montar o enxoval e o quarto, há um vasto terreno de conhecimento e de emoções para ser explorado, com ajuda de grupos de apoio e até de “doulas de adoção” (leia mais no fim da página). “Quem se prepara tem mais chance de ter uma adoção bem-sucedida, pois sabe com o que está lidando, mesmo que tenha medo. Essa espera ativa é necessária e pode ser gostosa”, recomenda Sandra.

Dúvidas, medos e angústias de pais ou pretendentes encontram espaço no Adoção Brasil, grupo de apoio que reúne 900 pessoas no Telegram e mais de 50 mil seguidores no Instagram. “Um ajuda o outro e vibra quando a adoção dá certo”, diz Grazyelle Yamuto, cofundadora do grupo. O Adoção Brasil nasceu em 2007 como blog, quando ela e seu marido Wagner Yamuto estavam na fila de adoção, após vivenciarem o luto da infertilidade.

“A gente não sabia direito como ia ser o processo, pois não tinha muita informação na internet. Então abrimos o blog, para compartilhar a nossa experiência”, conta. O primeiro filho, Gabriel, de 12 anos, chegou em 2010, depois de 3 anos e 9 meses de espera. Agatha, de 4 anos, se uniu à família em 2019, após 2 anos de espera. Ambos “nasceram” para Wagner e Grazyelle aos 10 meses de vida. Mas nem tudo foram flores: nos primeiros dias, na etapa de acolhimento feita no abrigo, que durou 30 dias, Agatha só chorou.

“No início, eles me viam como uma cuidadora, não como uma mãe. Quando caíam, choravam e não me procuravam”, conta Grazyelle. Para ela, a vinculação com bebês adotivos não é mais fácil do que de crianças mais velhas. “Isso é um mito. Todas precisam de um tempo para se adaptar a uma casa de estranhos, pois é preciso construir uma relação.”

Manter uma rotina é fundamental

Em 2016, quando recebeu Murilo pela via da adoção, a fotógrafa Annie Aline Bàracat, de 43 anos, foi rígida na rotina para reproduzir o cotidiano que o filho vivia no abrigo. “Copiei os horários em que ele mamava, acordava, ia ao banho, para que se sentisse seguro. Reproduzi até o tatame que ele usava”, conta. Observar com atenção e buscar atender às preferências do filho, que chegou aos 6 meses, ajudou no vínculo entre os dois, segundo Annie, que mantém o perfil Vamos Falar de Adoção no Instagram. “Em dois meses ele já estava bem adaptado, seguro comigo.”

Annie sempre sonhou em ser mãe, não importava a via. No final de 2014, se viu solteira, mas achou que era hora de colocar em prática o seu projeto e iniciou o processo de adoção. Familiares e amigos aceitaram a ideia, mas alguns estranharam a opção pela maternidade solo. “Houve quem dissesse que estava errado eu adotar uma criança sozinha.”

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Annie não deu ouvidos e, dois anos depois, recebeu a ligação da Vara da Infância e da Juventude (VIJ) para convidá-la a conhecer Murilo. “Chorava tanto que mal conseguia falar”, conta. Uma semana depois, no dia do seu aniversário de 38 anos, pôde comemorar a data entre fraldas e mamadeiras, com o filho já nos braços, em casa. “Murilo realmente é um presente para mim.”

Por indicação da VIJ, Annie participou do Gaasp – Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo, que existe desde 2005. Pelo WhatsApp, voluntários intermedeiam grupos segmentados, para pessoas em diferentes etapas do processo de adoção ou características, como famílias monoparentais ou LGBT+. Além disso, são oferecidos cursos preparatórios, previstos na Lei de Adoção 2.010, de 2009. Por ano, cerca de 900 pessoas participam. “Em quatro aulas, são abordados temas como os traumas da criança abandonada pelos pais biológicos, o impacto da devolução da criança que foi adotada, além de racismo e homotransfobia”, explica a psicoterapeuta Cecília Japiaçu Reis, presidente do Gaasp.

No trabalho de orientação, Cecília reforça a importância de aceitar a vida pregressa da criança. “É preciso entender que essa pessoa já tem a sua história de vida, mesmo que seja um bebê. Por mais que você receba um relatório sobre a criança, não é possível saber de todos os detalhes desse passado. Mas isso que ela passou poderá refletir em seu comportamento com o tempo.”

Um novo abandono

Evitar a romantização e a idealização ajudam a reduzir as possibilidades da devolução da criança, na experiência de Cecília. “No emocional da criança, a devolução é um novo abandono”, explica. Segundo ela, as devoluções são frequentes, com apresentação de motivos que vão dos mais pífios aos sérios. “Existem pais que devolvem a criança com argumentos de que ela chora demais ou tem medo de trovão, ao mesmo tempo que há devoluções bem embasadas”, conta. “Mas, se isso aconteceu, houve erro nas etapas do processo, não dá para jogar pedras nas famílias.”

Ana Isabely de Amorim Santos, de 15 anos, passou por três devoluções antes de encontrar a família atual: a intérprete de libras Priscila dos Santos Amorim, de 38 anos, e o seu marido, Elias de Amorim Santos, de 41. Desde que começaram a namorar, em 2004, o casal conversava sobre a possibilidade da adoção. Depois que se casaram, em 2006, descobriram um problema de infertilidade, o que os levou a seguir por esse caminho. No questionário sobre o perfil desejado, eles informaram que aceitavam as crianças que tivessem até 8 anos, sem preferência por etnia ou sexo.

No primeiro encontro com Ana Isabely, o casal já sentiu uma empatia. “Foi um momento muito gostoso e bonito”, recorda-se Priscila. Apesar disso, Priscila não romantiza a adoção e fala também das dificuldades no perfil Escolha de Amar, no Instagram. “A adaptação de uma criança mais velha não é fácil. Desacreditada do amor, Isa nos testou muito. Queria ver se íamos devolvê-la”, conta. Apesar das dificuldades, tudo foi se encaixando. “Com amor e paciência, criamos o vínculo. Mostramos que essa era a família dela, com a qual ela podia contar.”

Quando uma criança é aceita do jeito que é, ela fortalece a sua identidade, explica a psicóloga Viviane Namur Campagna. “Na medida em que se sente acolhida e vivencia novas experiências com a nova família, a criança vai ficando mais parecida com ela.” Viviane conta que há casos em que há o desejo dos pais de “zerar” a história do filho, como se fosse possível apagar o seu passado.

“Acompanhei famílias em que os pais reclamavam do nome da criança porque achavam cafona ou da música de sua preferência. Mas isso não pode ser desprezado, pois se trata da história dela”, diz.

Em busca da família biológica

A história da adoção do jornalista Alexandre Lucchese, de 39 anos, nunca foi tabu dentro da sua família. Ele ganhou uma nova família no seu primeiro dia de vida. “Isso sempre foi encarado com naturalidade por mim e respeitado pelas minhas irmãs, que são filhas biológicas”, afirma.

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Aos 30 anos, porém, ele procurou um psicanalista para tentar entender porque estava com dificuldades de estabelecer vínculos pessoais e profissionais. “Sentia que a minha vida estava estagnada. Quando comecei a falar sobre adoção na terapia, não parei mais. Percebi que era uma questão importante que eu estava fingindo não ver.”

A psicanálise despertou em Lucchese a vontade de encontrar a sua família biológica. “Eu carregava ressentimentos. Pensava: por que não cuidaram de mim?”, recorda-se. “Ao mesmo tempo, sentia medo da reação de seus pais adotivos, pois não queria me mostrar desleal a eles.”

Apesar dos receios, Lucchese fez uma investigação e conseguiu encontrar a sua mãe biológica pessoalmente – e fez as perguntas que queria fazer. “A mágoa e o ressentimento foram para o chão depois de ouvir as histórias da minha mãe. Depois disso, me senti muito mais leve”, conta.

Entusiasmado pelo tema, Lucchese escreveu o livro Vida de Adotivo, lançado em 2020, com 12 depoimentos sobre adoção do ponto de vista de quem é adotado. O mesmo título foi dado ao seu canal no Instagram, que tem quase 10 mil seguidores.

Aos pais que adotam, Lucchese recomenda que validem o sentimento e os questionamentos dos seus filhos em relação à sua origem biológica. “Muitas vezes a gente ouve: ‘esquece isso, a sua vida é legal assim.’ Mas é importante deixar que a pessoa desperte a sua curiosidade, sem medo de que isso a faça sofrer.”

Lucchese também orienta os familiares a nunca depreciar a família biológica de uma pessoa adotiva. “Quando você demoniza a origem de uma pessoa, faz isso com ela também. Ela vai sentir que não tem valor, pois não há como ela se dissociar de sua história.”

Gratidão tóxica

Quando criança, o publicitário Luiz Fernando Mota Melo, de 33 anos, costumava ouvir comentários como: “Que sorte a sua ter sido adotado pela sua família”. Na sequência, sua mãe Eliane Melo, de 68 anos, fazia a correção: “A sorte foi nossa de tê-lo encontrado”. Hoje, ele percebe que sua mãe fazia uma defesa do que chama de “gratidão tóxica”, que atinge especialmente os filhos adotivos.

“Esse tipo de comentário vem carregado de uma obrigação de sempre agradecer, o que gera angústia. Você cresce achando que não pode errar, que tem de ser o filho perfeito, enquanto um filho biológico não é cobrado para isso.”

Mota conta que a “gratidão tóxica” marcou sua infância e juventude, em que ele se empenhava para ser impecável, um estudante com ótimas notas, e o influencia até hoje. Quando resolveu cursar faculdade de publicidade, em vez de medicina, ele teve medo de decepcionar o seu pai, o pediatra João Nelson Lisboa de Melo, de 69 anos. A reação o surpreendeu: “Quando eu contei sobre a minha decisão, ele simplesmente perguntou qual era a melhor faculdade de publicidade. E disse que era lá que eu iria estudar.”

Buscando o autoconhecimento, ele tem refletido sobre as implicações da adoção em seu jeito de ser. “Na pandemia, passei a olhar para dentro e comecei a ver filmes e séries sobre o tema.” Em 2020, então, ele abriu no Instagram o perfil Eu, Adotado, para expor os seus sentimentos. Mas afirma que a intenção não é chegar aos pais biológicos. “Não guardo mágoas, mas não vejo motivo para procurá-los. Se eu os encontrasse, gostaria de dizer: deu tudo certo, eu estou bem e feliz.”

Mas afinal, o que é família?

Em geral, a sociedade ainda valoriza os laços sanguíneos nos núcleos familiares, o que reflete na aceitação de famílias inter-raciais, afirma a professora Silvia Leticia Fructuoso, de 38 anos. Ela e o marido Gilson Pereira da Silva, de 41, são brancos e adotaram Franciele, negra, hoje com 6 anos. “Quando estamos juntos, as pessoas ficam olhando como se fôssemos um jogo dos 7 erros, procurando as nossas diferenças.”

Franciele chegou em 2019, quase duas décadas depois de seus pais terem conversado pela primeira vez sobre a vontade de adotar uma criança, no início do namoro. “Adotar foi uma escolha. Filho é filho, independentemente de como ele chega. E família é um grupo de pessoas que escolhe estar junto e construir o amor”, define Silvia. Vira e mexe, a própria Franciele esclarece a situação para as pessoas que a questionam sobre as diferenças. “Ela fala sobre a adoção com leveza e naturalidade.”

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Para normalizar a adoção, o casal Betho Fers, de 40 anos, e Erick Silva, de 37, dizem que Chapeuzinho Vermelho foi adotada. A história é uma das preferidas de Stephanie, de 4 anos, que se integrou à família aos 6 meses. Quando começaram o relacionamento, em 2008, conversaram sobre adoção, mas isso ainda não era possível. Somente em 2015 foi reconhecido o direito de casais homossexuais adotarem nas mesmas circunstâncias que casais heterossexuais. “Stephanie chegou em 2018, momento que foi o mais feliz das nossas vidas”, conta Fers.

Envolvido com a causa, Fers abriu o canal Papaipeando em 2019 e fez um curso de doula de adoção, profissional que dá suporte emocional e faz uma curadoria de informações para pretendentes à adoção. “A sociedade não nos prepara para sermos pai ou mãe por adoção. Quando esse enredo é exibido, ele é muito fantasioso. A doula ajuda a derrubar tabus e trabalhar questões práticas e emocionais.”

Com muita ginástica para conciliar vida profissional e os cuidados com a filha nos últimos anos, o casal considera que a família está vinculada. Mas os questionamentos sempre surgem. “As pessoas perguntam se a Stephanie não sente falta da figura da genitora. A gente responde que na nossa família valorizamos a abundância: sobra vontade, amor, disposição para acompanhar a nossa filha. É isso que importa”, afirma Fers.

O que são doulas de adoção?

A doula, profissional que acompanha com suporte emocional e curadoria de informação momentos de transição na vida das pessoas, é conhecida por seu trabalho com gestantes. Mas, desde 2019, é oferecida no Brasil a formação de “doula de adoção”, voltada a apoiar pretendentes da adoção ou pais adotivos. O curso foi desenvolvido pela educadora e doula Marianna Muradas, filha via adoção, junto com Mayra Aiello, psicóloga e mãe via adoção. Inclui 54 horas de aula, estágio supervisionado e trabalho de conclusão de curso.

Na fase da espera, a doula ajuda o pretendente a se preparar para receber o filho e lidar com a ansiedade. “Indicamos leituras, atividades de autocuidado e registros da espera”, explica Marianna. Após a chegada da criança, a profissional acolhe o turbilhão de emoções dos pais que adotaram. “Infelizmente a nossa sociedade ainda aborda e trata a adoção com muitos preconceitos, o que faz com que as famílias se afastem dos seus núcleos de convivência. Então ouvimos muitos relatos de pessoas que se sentiram extremamente solitárias.”

Marianna explica que o trabalho da doula complementa a atuação dos profissionais das Varas de Infância e Juventude e dos grupos de apoio. “Nosso atendimento é individualizado, para que cada pessoa seja acolhida nas suas escolhas e questões pessoais”, diz.

Como estabelecer um bom vínculo

  • Não romantize: a criança trará desafios como em qualquer família, com o agravante do trauma da separação dos pais biológicos.
  • Abuse do pele a pele: pegue no colo o bebê, abrace, assista a um filme colado no sofá.
  • Mantenha a rotina: tente reproduzir a rotina vivida anteriormente pela criança ou pelo adolescente.
  • Aceite a vida pregressa: mesmo que ele seja um bebê, não pense em “zerar” a história do seu filho. Sua origem está antes de ele ser adotado.
  • Respeite as suas expressões culturais: as preferências de música, dança, esporte e entretenimento não devem ser rejeitadas.
  • Não demonize a família biológica: ao fazer isso, você está desprezando a origem do seu filho.
  • Fale com naturalidade sobre a adoção: esconder do seu filho que ele é adotado ou esperar pelo momento certo de “revelação” pode ser ainda mais traumático.
  • Permita a investigação das origens: se o seu filho procurar os pais biológicos, ele está em busca de conhecer as origens – não quer dizer que você falhou em algo. Mesmo que seja dolorido, pode ser importante para ele.
  • Abra espaço para desabafos: não cale a voz do seu filho. Deixe que ele se expresse para falar de suas dores e dúvidas em relação à vida pregressa e à adoção.
  • Cuidado com a gratidão tóxica: não faça seu filho sentir que precisa se anular ou ser perfeito para retribuir o amor e a dedicação dos pais.